
Um homem me procura para uma entrevista em busca de aconselhamento. Declara:
- Sou pai de um menino de seis anos. Eu o amo, sem dúvida, mas desde quando ele nasceu não consigo lhe dar carinho. Tenho dificuldade de abraçá-lo, beijá-lo. Ele corre na minha direção e eu passo a mão na cabeça dele, brinco um pouquinho e logo me distancio. Tenho até vergonha de dizer, mas tem vezes que sinto até uma repulsa. Isso está me dando desespero. Mas eu sei por quê! Sabe... Meu pai nunca me abraçou. Não me lembro de ter tido dele um afago, um carinho. Então hoje não sei dar".
O conflito pelo qual este homem passa é completamente compreensível e respeitável porque a dor alheia, qual seja, merece respeito e entendimento. Todavia, ele não é justificável.
A princípio, parece-nos uma evidente carência de amor na infância e, por essa carência, o surgimento de uma incapacidade de amar também. Sim, isso acontece! Mas não precisa acontecer obrigatoriamente. Apenas ocorre porque a área noética ou espiritual de onde podemos erigir toda a robustez do nosso ser está reprimida. Acredito claramente que o sofrimento não se dá, antes, pelo conflito existente, mas pelo esquecimento do poder de obstinação espiritual que todos possuímos.
É importante observar que este homem detecta duas coisas marcantes: (1) a falta de amor que deveria ter recebido e (2) a falta de amor que deveria dar. Imagino a angústia pela qual ele passa submetido a tantas cobranças: a de que deveria "ter" recebido e a de que deveria "ser" diferente.
Realmente, ele não pode mais "ter". Mas pode "ser" se quiser. Ele crê que não possui as condições necessárias para amar o filho porque não foi amado antes. Então acredita que falta-lhe a compreensão para fazê-lo. Mas isso não é verdade!
Justamente pela existência do conflito é que podemos perceber a presença de recursos equivalentes. A volição (o movimento para algo) é que está embotada. Há um bloqueio na direção do sentido a ser realizado que é amar. E por quê? Pelo ferimento na liberdade espiritual provocado não pela ausência de afeto anterior, mas pelo estilete da falta de perdão.
A falta de perdão ao pai por não ter sido aquilo que ele esperava trancou sua capacidade livre de amar no calabouço dos rancores. E o rancor é um mecanismo que pune, muitas vezes, a pessoa errada quando a privamos do amor na tentativa de atacar aquele que nos negou outrora esse mesmo amor.
Ele não compreende que exatamente pelo fato de sentir falta é que está abarrotado das condições propícias para amar. Só está algemado ao maior carrasco do sentido existencial: o medo! O medo de dar o que não recebeu! O medo de ser livre e, por isso mesmo, bom e amoroso apesar de alguma escassez do passado! Porque o rancor e o ódio são filhos do medo, do medo de poder SER sem as bengalas do TER TIDO.
Na verdade, de certa maneira, quanto mais se recebe, menos se tem preparo para dar. Quanto maior o atendimento às próprias necessidades, menos condições de sentir as necessidades alheias. Isto quer dizer que a carência de TER TIDO, se bem compreendida e perdoada, aprimora a fartura de ser...
Então este homem pode dar o que não recebeu! Tem em si mesmo os instrumentos indispensáveis para ser livre e decidir amar, afagar, beijar, mesmo (e sobretudo) que lhe tenha faltado tal experiência porque na falta do que nos possam dar criamos abastança para distribuir.
O nome disso é liberdade espiritual, uma capacidade excepcional de SER sem TER TIDO.
Que possamos dispor dela em abundância.